segunda-feira, 31 de maio de 2010

Soneto (27/05)

O som do silêncio enlouquece a mente
Que por si só já sente a solidão
De um ser sem vida que jaz sob o chão
Com alma prisioneira do presente

Ela nada pode ouvir, ver, senão
O vácuo tão irritante, insistente
Que, como insano, grita novamente
O mudo som que a morte trouxe em vão

Nenhuma sensação é comparável
À eternidade fria e sem cor
Quando sobre a lápide a mão afável

Liberta de uma agonizante dor
Que se mostra cruel e interminável
Aprofundando a sensação de horror

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Túnel

Caminhava de mãos atadas até o final do túnel. Não havia luz, mas apenas uma chama fraca, que oscilava como se uma brisa constante ameaçasse apagar a única fonte de brilho daquele cenário sem vida. A cada passo encontrava-se a uma distância ainda maior de seu destino. Então parou. Após longos momentos repousando, percebeu que seus passos o levavam em direção a um espelho, que refletia sua sombra e a saída atrás de si. Mas suas pernas já não o obedeciam, e as paredes da caverna começaram a fechar-se, tornando seu repouso uma experiência claustrofóbica e aterrorizante. O oxigênio era escasso, assim como suas forças. Morreu dormindo em sua cama king size, enquanto a televisão exibia seu programa favorito.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

The Path

A terra seca machucava seus pés desnudos, mas era o único caminho. Não sabia o destino daquela trilha, e já não se lembrava de onde vinha. Mas "sempre em frente", era o que diziam. Seus olhos mal conseguiam enxergar os metros adiante, posto que a sonolência o arrebatava. Era um cenário lúgubre, banhado pela luz da lua, que a tudo observava, em preto e branco. Mesmo as manchas recentes de sangue pareciam negras.

Uma leve brisa trazia consigo o aroma de carniça e morte, que já não o incomodavam mais. Não sentia fome, não sentia medo, não sentia repulsa. Tudo o que sentia era uma dor incessante no peito. Na busca pela origem da dor, percebeu que havia um punhal cravado fundo em seu peito. Não fazia idéia de como aquele objeto fora parar em sua carne, tudo o que sabia era que caminhava sempre em frente, sem parar, sem olhar para trás nem para os lados.

Precisava livrar-se daquilo. Respirou fundo e arrancou o punhal de si mesmo. A dor lancinante o derrubou de joelhos no chão, como que em prece para que a dor cessasse. Mas não cessava. A mancha escura do chão se tornava ainda maior, e suas mãos tentavam em vão estancar o que restava da substância dentro do corpo quase morto. Já não tinha forças para levantar e, consternado, deixou-se abater pela sensação inebriante de perder os sentidos vagarosamente.

Quando abriu os olhos, toda a escuridão se fora. O lugar onde se encontrava definitivamente não era o céu, mas era branco. Cheirava a álcool e era frio. Aos poucos sua percepção se tornava mais aguçada e pôde concluir que era um quarto de hospital. Lembrou-se de tudo, fracassara mais uma vez. Olhou para suas mãos, ainda manchadas com seu próprio sangue, mas os pulsos estavam enfaixados.

Seguiria em frente, obedeceria a ordem suprema. Era apenas uma questão de tempo, e estaria traçando o caminho novamente, manchando-o com seu sangue, vagando eternamente em busca de respostas que sabia que não existiam.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Sombra

A sombra deslizava pelas ruas. Sem rumo, sem nome, sem rosto. Entorpecida pela consciência de suas deformidades, tomava para si todas as vidas que encontrava por seu caminho como um buraco negro consumindo sua presa, sem deixar rastros de sangue para trás. O silêncio reinava, enquanto a cidade, adormecida, era embalada por sonhos e ilusões.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Adaga


O vento trazia à tona todas as lembranças que, por um breve momento, jaziam profundamente em algum lugar empoeirado e escuro. Estava segura em um quarto de motel, aquecida pelo corpo de um desconhecido, cujo nome nem poderia imaginar. Sentia a respiração longa e serena daquele cujo rosto não recordava, dormindo o sono dos inocentes, perdido sob o manto de Morfeu. A luz da lua cheia seria inspiradora, se os pensamentos não a consumissem como predadores famintos de sangue. Mal conseguia conter-se, derramando lágrimas silenciosas, que amornavam seus lábios gélidos, enquanto as horas passavam vagarosamente. Não sabia o que estava fazendo naquele lugar, que a cada minuto parecia mais hostil e desconfortável.

Resolveu levantar-se, desvencilhar-se daquele abraço quente, aconchegante e vazio. Já não conseguia mais encarar o homem que calmamente jazia. Tocou-lhe os cabelos, que cobriam parte de sua face, e beijou-lhe o pescoço, sentindo a textura macia de uma pele fina e vulnerável. Já não poderia evitar. Tudo o que causara, tudo o que a assombrava, tudo estava perdido em um passado que, como pesadas correntes em torno de seus braços, arrastava consigo. Não poderia fugir do que era, não poderia inventar mentiras para si mesma, cravando a adaga cada vez mais fundo em seu peito, fazendo jorrar palavras e imagens indesejadas.

Sorveu-lhe a vida, como fizera diversas vezes, deleitando-se com o sabor de uma alma perdida, que gemia ao entender que nunca mais a veria. Invadida pelo êxtase de uma conquista e de uma derrota inevitáveis, a dor mascarada pelo ato de limitar-lhe a existência tornava-se insignificante. Após a última gota, a superfície de seu amante era de um palor que remetia à sua mãe, reluzente, que a tudo observava através da janela aberta. Sem culpa ou remorso, tomou-o para si, aninhando-o em seu peito como uma criança desamparada. Beijou-lhe a face, um beijo de boa noite. Uma noite sem sonhos.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Soneto

De todos os sonhos perdidos, frios
Restam apenas fundas cicatrizes
Por onde escaparam tempos felizes
Com o curso de lágrimas do rio

Ao ocaso, a dor acompanha a crise
O último suspiro é vão, tardio
A noite se torna um carrasco vil
Palavras perdidas ao meu deslize

Qual silêncio será meu protetor
Em meio ao vazio lúgubre, e à sina
De um vaso sem água, vida nem flor?

Sobre a pedra fria jaz a menina
Em cuja face infantil falta a cor
E a mão da morte calmamente a nina